O frágil equilíbrio da moda entre o conhecimento ancestral e a inovação
O frágil equilíbrio da moda europeia foi destacado no European Designer Fashion Summit em Barcelona (13 e 14 de abril).
Não com resignação, entenda-se bem, mas como um alerta em um setor cada vez mais dividido entre a escassez de habilidades e as transformações digitais implacáveis. Federações, plataformas e inovadores concordam: há necessidade de proteger aqueles que agem, entender como os processos estão mudando e abrir espaço para novas formas de criatividade. Nos painéis dedicados à tradição e à inovação, à digitalização e aos novos modelos, o Summit focou-se nas tensões, mas também nas possibilidades. Para encerrar o Evento, Carlo Capasa, presidente da Câmara Nacional da Moda Italiana, discursou.
Segundo Pascal Morand (Fédération de la Haute Couture et de la Mode), “vivemos numa era de rápidas transformações tecnológicas e jurídicas, que correm o risco de minar a especificidade europeia”. “Creativity matters (A criatividade importa)”, reiterou. Porque sem uma defesa estrutural da manufatura e do pensamento criativo, a Europa perderia aquilo que a distingue. Mas foi Carlo Capasa quem forneceu um cartão-postal preciso do modelo europeu, especialmente do italiano. Capasa lembrou, aliás, como o sistema de moda italiano é extremamente difundido: 60.000 empresas, 600.000 trabalhadores, dos quais 92% são artesãos que não são meros executores, mas que “frequentemente se tornam coautores, participando do processo criativo”. Nos distritos, explicou Capasa, a interação entre pequenos artesãos e grandes empresas gera uma inteligência coletiva: “quem corta o couro, quem constrói a forma, quem propõe soluções aos designers. É um fluxo que vem de baixo e que torna a indústria italiana, e por extensão a europeia, única”.
Para Capasa, no entanto, a relação com o setor manufatureiro deve ser abordada politicamente. Proteger os artesãos significa comunicar o valor do seu trabalho, educar as novas gerações e, sobretudo, “remunerá-los melhor, também para atrair os jovens. Sem isso, o risco é um faroeste da fast fashion“, onde produtos sem raízes esmagam aqueles que preservam habilidades seculares. Ao contrário da Europa, que se destaca precisamente nas suas diferenças: beleza, raízes, futuro, herança e inovação entrelaçados. E a cooperação entre cidades e plataformas — Milão, Paris, Copenhague — deve tornar-se a base para permitir que as novas gerações expressem seus pontos de vista. É exatamente isso que a capital dinamarquesa está fazendo. Cecilie Thorsmark, CEO da Copenhagen Fashion Week, destacou como, em comparação com seus concorrentes, Copenhague está construindo um modelo baseado na criatividade e responsabilidade social.
O primeiro painel do dia, por sua vez, mudou o foco para a inovação como um processo sistêmico. Regina Polanco (Pyratex) lembrou que os consumidores exigem comunidade, transparência e narrativas sustentáveis. Inovar significa repensar as cadeias de suprimentos e os modelos de negócios. Para Fernando Cardona (Jeanologia), a sustentabilidade é, agora, um pilar exigido pela sociedade. Após a pandemia, a desaceleração criou espaço para a inovação, mas hoje o produto não basta; a forma como é produzido é que importa. Fabio Palma (EIT Culture & Creativity) destacou que a inovação, se não agregar valor, torna-se nociva. O desafio europeu é estabelecer um diálogo entre grandes grupos e pequenas entidades, em meio a pressões sociais e regulamentações como o passaporte digital. Um sistema complexo e intersetorial que exige escalabilidade e visão. Para Jordi Ferré (AITEX), inovação significa materiais, processos, design, mas também localização produtiva. Nem tudo se aplica a todos os segmentos. “A alta-costura continua sendo um território humano, feito de costureiras e mãos.” A IA pode ajudar, mas apenas se estiver integrada em sistemas rastreáveis e responsáveis.
Fonte: La Conceria (www.laconceria.it)
Tradução: ABQTIC







