IULTCS se posiciona sobre Regulamento da União Europeia
Posição da IULTCS em relação à consulta pública sobre o Ato Delegado Preliminar referente a couros e peles bovinas (códigos aduaneiros 4101, 4104 e 4107), que propõe sua exclusão do Anexo I do *Regulamento da União Europeia sobre Desmatamento (EUDR)*, com base nos seguintes critérios científicos.
A IULTCS emitiu seu posicionamento através de um documento que disponibilizamos em nosso site e você pode acessar através do link https://abqtic.com.br/biblioteca/ ou ler o mesmo conteúdo em português e inglês que disponibilizamos logo abaixo.
Versão em português (tradução ABQTIC)
Fundada em Londres em 1897, a União Internacional das Sociedades de Tecnólogos e Químicos do Couro (IULTCS) é a maior organização científica do mundo dedicada ao couro. Ela reúne 17 sociedades-membro, 4 membros associados e 2 membros apoiadores, representando coletivamente mais de 3.000 indivíduos.
Este documento representa a posição da IULTCS em relação à consulta pública sobre o Ato Delegado Preliminar referente a couros e peles bovinas (códigos aduaneiros 4101, 4104 e 4107), que propõe sua exclusão do Anexo I do Regulamento da União Europeia sobre Desmatamento (EUDR), com base nos seguintes critérios científicos:
- A literatura científica atual não sustenta a alegação de que couros, peles ou couro acabado sejam impulsionadores diretos do desmatamento, ao contrário de outras commodities para as quais essa relação foi amplamente documentada e comprovada.
- É importante avaliar o valor relativo dos couros e peles em comparação com os demais produtos originados do animal. Em média, os couros e peles representam entre 0,5% e 2,0% do valor do animal para o frigorífico na maioria dos países. Dados históricos indicam que esse valor vem diminuindo ano após ano (1). Atualmente, não existe um modelo econômico viável que justifique a criação de animais exclusivamente para a obtenção de seus couros ou peles. A pesquisa de Brester e Swanser (1) indica que couros e peles são subprodutos da indústria da carne e que os preços dos couros não afetam diretamente a produção de gado nos Estados Unidos. A mesma tendência é observada globalmente.
- Publicações em periódicos científicos revisados por pares indicam que:
- O couro bovino não pode ser considerado um impulsionador direto do desmatamento no Brasil (2);
- O couro, isoladamente, não promoveria o desmatamento no Brasil e contribui para reduzir resíduos da produção de carne bovina (3)(4);
- O deslocamento da demanda para países com sistemas avançados de rastreabilidade pode gerar efeitos negativos sobre o desenvolvimento de mecanismos de rastreabilidade nas cadeias produtivas que mais necessitam deles (5).
- A redução do uso do couro e sua substituição por materiais sintéticos derivados do petróleo não constitui uma estratégia eficiente para enfrentar as persistentes pressões ambientais que o mundo enfrenta atualmente. Os objetivos de economia circular e eficiência no uso de recursos podem ser negativamente impactados pela menor durabilidade e biodegradabilidade dos materiais sintéticos em comparação com fibras naturais, aumentando a dependência de alternativas sintéticas que podem apresentar maior pegada de carbono e desafios de sustentabilidade. Paralelamente, a substituição de fibras naturais por materiais sintéticos pode contrariar alguns dos atuais objetivos ambientais da União Europeia: a. Pacto Ecológico Europeu (European Green Deal) – 2019;
b. Plano de Ação para a Economia Circular da UE – 2020;
c. Plano de Ação para Poluição Zero – 2021;
d. Plano de Metas Climáticas da UE para 2030. - Além da ausência de evidências de que a demanda por couro impulsione significativamente a pecuária (1), a inclusão dos códigos HS 4101, 4104 e 4107 provavelmente enfraquecerá a liderança da Europa na produção de couro sem contribuir de forma significativa para os esforços globais de redução do desmatamento. Caso as restrições propostas sejam implementadas, os couros e peles poderão ser redirecionados para outros países ou absorvidos pelos mercados internos dos países produtores, sem redução da produção total. Esses materiais ainda poderão ingressar nas cadeias de suprimento da União Europeia em formas com menor visibilidade, transparência e padrões ambientais ou sociais inferiores.
Embora as evidências econômicas e científicas sustentem fortemente que os couros não são um fator impulsionador da produção animal, a IULTCS reconhece que a indústria do couro pode atuar como parceira e aliada no desenvolvimento de melhores mecanismos de rastreabilidade na cadeia de suprimentos, e que soluções colaborativas multissetoriais devem ser priorizadas e incentivadas.
Respeitosamente, instamos os reguladores da União Europeia a considerarem esta análise à luz das evidências científicas, levando em conta os impactos ambientais e socioeconômicos sobre a indústria do couro.
Referências
- Brester, G. W. e Swanser, K., Quantifying the Relationship Between U.S. Cattle Hide Prices/Value and U.S. Cattle Production, Relatório LHCA, Washington, D.C., EUA, 4 de fevereiro de 2021.
- Mamadova, A., Masiero, M. e Pettenella, D., Forests 2020, 11(4), 472.
- França, C.S.S., Is leather a forest-risky commodity? Exploring embodied deforestation in the Brazilian leather supply chain, Dissertação de Mestrado, Universidade de Pádua, 2017.
- Iraldo, F. e colaboradores, Socio-economic and environmental analysis of the effects of Regulation 2023/1115/EU on the European leather sector, Instituto de Gestão da Escola Superior Sant’Anna, Pisa, Itália, 2024.
- Laroche, P.C.S.J. e colaboradores, Accounting for trade in derived products when estimating European Union’s role in driving deforestation, Ecological Economics, 224 (2024), 108288.
Sr. Geoff Holmes – Presidente
Dr. Luis A. Zugno – Secretário Executivo
M.Sc. Kim A. Sena – Presidente de Sustentabilidade
IULTCS
c/o NOFIBA Audit AG
Beim Goldenen Löwen 11
4052 Basel, Suíça
Website: www.iultcs.org
E-mail: secretary@iultcs.org
Versão em Inglês (Íntegra do documento da IULTCS)
Founded in London in 1897, the International Union of Leather Technologists and Chemists Societies (IULTCS) is the world’s largest scientific organization dedicated to leather. It includes 17 Member Societies, 4 Associate Members, and 2 Supporting Members, collectively representing over 3,000 individuals.
This document represents the IULTCS opinion regarding the public consultation on the Draft Delegated Act regarding bovine hides and skins (customs codes 4101, 4104, 4107) to be excluded from the Annex I of the EU Deforestation Regulation (EUDR) based on the following scientific criteria:
1) Current scientific literature does not support the claim that hides, skins, or leather are direct drivers of deforestation, in contrast to other commodities for which this link has been extensively documented and substantiated.
2) It is important to assess the relative value of hides and skins when compared to the products originated from the animal. On average, the hides and skins represent between 0.5% – 2.0% of the value of the animal for the slaughterhouse in most countries. Historic data points out that this value has been decreasing year over year (1). Currently, there is no viable economic model that justifies raising the animals for their hides or skins. The research of Brester and Swanser (1) indicates that hides and skins are a by-product of the meat industry and that hide prices do not directly affect cattle production in the United States. The same trend is observed across the globe.
3) Publications on peer review journals indicate that Bovine leather cannot be attributed as a direct driver of deforestation in Brazil (2); leather alone wouldn’t drive deforestation in Brazil, and it mitigates waste from beef production (3)(4); the displacement of the demand to countries with advanced traceability systems can have negative effects in the development of traceability mechanisms in supply chains that need it the most (5).
4)The reduction on leather usage and its replacement by synthetic and oil-based materials is not an efficient strategy to address the adamant environmental pressures the World currently faces. Circular economy and resource efficiency goals might be impacted negatively by the lower durability and biodegradability of synthetic materials when compared to natural fibers, increasing reliance on synthetic alternatives, which may have higher carbon footprints and pose sustainability challenges. In parallel, the replacement of natural fibers for synthetic materials can be antagonistic to some of the EU’s current environmental goals:
a. European Green Deal (2019);
b. EU Circular Economy Action Plan (2020);
c. Zero Pollution Action Plan (2021);
d. EU Climate Target Plan 2030.
5) In addition to the lack of evidence that leather demand significantly drives cattle ranching (1), the inclusion of HS codes 4101, 4104, and 4107 is likely to undermine Europe’s leadership in leather production without meaningfully contributing to global deforestation reduction efforts. If the proposed restrictions are implemented, hides and skins may be redirected to other countries or absorbed by domestic markets in producing countries, without reducing overall production. These materials could still enter EU supply chains in forms with lower visibility, transparency, and environmental or social standards.
While economic and scientific evidence robustly supports that hides are not a driver of animal production, the IULTCS acknowledges that leather industries can be a partner and an ally in developing better traceability mechanisms in the supply chain and that multi-sectoral collaborative solutions must be prioritized and sought after. We respectfully urge EU regulators to consider this review in light of scientific evidence, considering the environmental and socio-economic impacts on the leather industry.
References:
1) Brester, G. W. and Swanser, K., Quantifying the Relationship Between U.S. Cattle Hide Prices/Value and U.S. Cattle Production, LHCA Report, Washington, D.C., USA, February 4, 2021
2) Mamadova, A., Masiero, M. and Pettenella, D., Forests 2020, 11(4), 472; https://doi.org/10.3390/f11040472
3)França, C.S.S., Is leather a forest-risky commodity? Exploring embodied deforestation in the Brazilian leather supply chain, M.Sc. Thesis, Universita’ Di Padova, 2017, https://doi.org/10.13140/RG.2.2.34439.34727
4) Iraldo, F. et alii, Socio-economic and environmental analysis of the effects of Regulation 2023/1115/EU on the European leather sector, Institute of Management of Sant’Anna School of Advanced Studies, Pisa, Italy, 2024
5) Laroche, P.C.S.J. et alii, Accounting for trade in derived products when estimating European Union’s role in driving deforestation, Ecol. Econ., 224,(2024) 108288, https://doi.org/10.1016/j.ecolecon.2024.108288
President Mr. Geoff Holmes
Executive Secretary Dr. Luis A. Zugno
Sustainability Chair M.Sc. Kim A. Sena
IULTCS, c/o NOFIBA Audit AG, Beim Goldenen Löwen 11, 4052 Basel, Switzerland
Website: www.iultcs.org
Email: secretary@iultcs.org
Texto e tradução: Ednardo Artencio – Diretor de Publicações ABQTIC
Fonte: IULTCS







